perjantai, huhtikuu 29, 2005

Era uma vez uma rã

Esta rã vivia num quadradinho dum jardim botanico juntamente com uns nenúfares e uns papiros e uma tabuleta com uns dizeres em latim. Esta era uma rã feliz porque tinha um quadradinho só para ela e vizinhos sossegados que só faziam barulho quando lhes dava o vento. Um belo dia, estava a rã a croackar no seu quadradinho, a pensar no quão bela era a vida, quando ouviu um croackar longínquo. Ao princípio pensou que era eco, acontecia às vezes que as paredes do mundo lhe devolviam os croacks, da mesma maneira que a superfície da água lhe devolvia o eu, mas isso não costumava acontecer naquela altura do ano porque os papiros tinham muitas folhas e não deixavam os ecos passar, e deixou-se ficar muito caladinha, a tentar perceber que eco era aquele que atravessava folhas. Mas os croacks continuaram, mesmo com ela caladinha, e ela ficou muito surpreendida porque no mundo os únicos croacks eram os dela, mesmo que repetidos em épocas menos frondosas. E então a rã pôs-se a pensar no assunto, a tentar descobrir uma explicação para o mistério dos croacks sem dono, e decidiu que os croacks deviam pertencer a algum ser doutro mundo, algum extra-quadradinhestre. E deciciu averiguar, não porque estivesse particularmente interessada em conhecer outros seres, mas porque queria sentir a satisfação de estar certa. E começou a construção duma máquina capaz de traspor as paredes do mundo, usando folhas de papiro, um nenúfar particularmente grande e a placa com dizeres em latim. Terminada a construção e preparado um farnel com comida suficiente para uma semana (se eu dou a volta ao mundo numa hora, uma semana deve chegar para ir a outro mundo, comprovar a existência de extra-quadradinhestres e voltar, pensava ela), a rã deu às patas e partiu. Transpôr as paredes do mundo não foi particularmente difícil e demorou uns tão miseros 5 minutos, que a rã até pensou que nem valia a pena ter construído a maquina, que podia ter vindo aos saltos. Mas depois das paredes do mundo a rã verificou que havia muitos outros mundos, com a mesma forma do dela, e também com uma placa com dizeres em latim, mas onde os papiros e nenúfares tinham outras cores e folhas diferentes e flores pequeninas e brancas, e nesses mundos viviam tambem outros seres, seres compridos e prateados com barbatanas, seres redondos e rechonchudos com riscas vermelhas e brancas e com barbatanas, e seres pretos e achatados e com barbatanas. E para alem destes mundos havia vastas extensões de mundos sem agua com papiros grandes e de troncos castanhos e seres com barbatanas cobertas de penas, e ainda mais vastas extensões de mundos pretos com riscas brancas e com seres brilhantes a andar muito depressa e a fazer fumo, e a rã sempre a dar às patas, aguardando vislumbrar os mundos onde vivessem os seres que faziam croack. Quando a rã ja começava a pensar se se iria ver obrigada a comer a maquina para sobreviver, começou a ouvir muitos croacks, e viu ao longe uma grande mancha azul com um enorme papiro de tronco castanho e folhas verdes em forma de pena no meio, e deu ainda mais às patas, com o dobro das forças, até chegar à grande mancha azul. Exausta, morta de fome, com as patas a tremer, viu-se no meio de um monte de seres e verificou surpresa que eram todos iguais a ela, que faziam croack como ela, que comiam as mesmas coisas que ela e que gostavam de descansar nos mesmos sitios que ela gostaria caso vivesse naquele mundo. E a rã soube então que o mundo era grande e cheio de coisas e achou que a vida dela tinha sido um desperdicio de voltas ao quadradinho e conheceu a infelicidade.

tiistai, huhtikuu 26, 2005

explicaçao

Não consigo inventar nada que não comece por “era uma vez” e em que “um belo dia” não aconteça qualquer coisa. Às vezes consigo disfarçar, tirando os acima indicados elementos depois da historia escrita, ajustando pronomes e interjeições e demais palavrinhas pequenas que vou sabendo usar mas que nuca sei como se chamam. Não consigo escrever diálogos, nem descrever paisagens nem adjectivar o que quer que seja (excepto os dias em que acontecem coisas, que são sempre belos). Não consigo escrever poemas, a menos que por poemas se entendam frases completas com palavras no fim que rimam com frases completas mais abaixo, ou frases completas que não rimam mas que estão devidamente amputadas por paragrafos de modo a ter uma forma poética. Não consigo escrever cartas de amor sérias porque a única coisa que me ocorre dizer é amo-te e para não parecer mal encho o resto da folha com outras coisas e palavras. E não consigo deixar de tentar ser exacta, e ir investigar de que cor são as pernas das rãs quando cozinhadas, qual é o volume de sangue que uma pulga bebe, e se antes generalizava e dizia que as gajas são todas isto e os gajos todos aquilo era porque em conversa com mais um monte delas e deles verificava que nos queixavamos todos do mesmo.

torstai, huhtikuu 21, 2005

vozes

Normalmente as vozes moram nas cabeças das pessoas, algumas pessoas ouvem mais do que uma, e algumas pessoas nem a sua ouvem. Quando as vozes se ouvem fora das cabeças é porque estão a viajar da cabeça duma pessoa para a cabeça doutra pessoa. Antigamente as vozes só podiam viajar pelo ar, e como as vozes não têm pernas nem braços nem rodas, só podiam viajar distâncias curtas. Hoje em dia, com os avanços tecnologicos, as vozes podem viajar até cabeças que estão a milhares de Quilometros, usando fios, satélites e bytes. Às vezes acontece que uma voz sai duma cabeça, mas a cabeça de entrada não a quer deixar entrar, e a voz fica perdida. Algumas vozes perdidas ainda tentam arranjar um mudo que lhes dê emprego, mas a maioria das vozes perdidas acabam por ir morar para cabines telefonicas, onde se dedicam a viajar à socapa até outros países e cabeças.

maanantai, huhtikuu 18, 2005

Ostras

As ostras são mais comidas aqui que em qualquer outra parte do mundo. As ostras comem-se vivas. Primeiro deve-se pôr um pouco de limão para as anestesiar. Depois desapegam-se da casca com um garfo, leva-se a concha à boca e sorve-se. Devem-se mastigar bem para que não tentem vingança, escalando pelo esofago e tentando encontrar um buraco por onde entrar para nos mastigarem o cérebro. Comer ostras sabe a mastigar água do mar.

E, finalmente, o vinho

Dia de “portas abertas” na região de medoc. Fomos de carro, pelo meio de vinhas e aldeias, com o ocasional vislumbre de rios e centrais nucleares. As uvas fazem-se nas vinhas, os vinhos fazem-se nos Chateau. As vinhas nesta altura do ano parecem plantações de troncos baixinhos, com uns barrotes a segurá-las, ou aos corvos. Os Chateaus chama-se todos chateau, quer os que têm torres e ameias e imponência quer os que parecem casas ou garagens de gente. Durante um fim de semana de primavera estão de “portes ouvertes”: abrem-se as portas das adegas e das caves, abrem-se as rolhas das garrafas, abrem-se os sorrisos dos propietários e “fazedores de vinho” e quem quer entra e aprende e pergunta e desfruta e conversa e prova. Os pequenos oferecem petiscos e falam dos vinhos deles e daquela vez em que o marido comprou um tractor em segunda mão só porque era dum jogador de futebol, e de como a vida está dificil e dão à prova o que têm à venda, com as tabelas de preços à mão. Os grandes mostram a adega, explicam as técnicas e as qualidades e as higienes e as máquinas e dão à prova vinhos que ainda não estão à venda mas do qual estão extremamente orgulhosos.
Por alturas de Setembro umas maquinas colhem as uvas, outras maquinas esmagam as uvas, as uvas entram nas cubas onde passam umas semanas a fermentar. Daí passam para barricas de carvalho de 220 litros. Os propietários pequenos gostam mais do carvalho americano e gabam-lhe as propiedades organolepticas e de preços. Os propietários grandes orgulham-se do seu carvalho exclusivamente frances. Os propietários grandes acham imprescíndivel mudar de barricas todos os anos, os propietários pequenos contentam-se com mudá-las de 3 em 3 anos. Ano e meio depois de entrar nas barricas o vinho vai prás garrafas e daí para as barrigas de pessoas de todo o mundo, característica comum a vinhos de donos grandes e pequenos, todos arranjam maneira de vender e exportar...

tiistai, huhtikuu 12, 2005

Museu do Dia

Um museu da segunda guerra mundial e da resistencia francesa. Desta vez, e curiosamente em versão bilingue, francês e alemão, não sei se numa atitude de fair play, se numa atitude de toma lá que ganhamos. Posters, anuncios de execuções, mapas, objectos, medalhas, fotos. Até é assunto que me interessa, e até gostava de saber o papel da frança nesta guerra, mas ler francês de pé cansa. Passei os olhos de relance por tudo. Como bom ser humano, sedento de sangue e de um bom abanar de cabeça depreciativo pelas atitudes dos outros, analisei atentamente todas as fotos e artigos relativos a campos de concentração.
Nos outros museus, os de artes, as zonas mais sangrentas são geralmente as de pinturas religiosas. Pode haver uma ou outra guerra, execução ou cena de escravatura, mas em que outra zona se pode ver um corpo a segurar a propria cabeça, decepada, mas com um ar bastante comunicativo, na mão?
No de belas artes do que mais gostei foi dos retratos, é uma coisa que tenho, não consigo decorar uma cara, se me sentar e tentar imaginar uma, seja a minha ou a de quem a tem mais vezes perto de mim, posso até ver uma sobrancelha, um olho ou uma cana do nariz, se me esforçar consigo trazer à memória alguns pormenores de alguma fotografia que tenha visto mais vezes, mas nunca uma cara inteira, e caras é das coisas que mais gosto de ver pintadas.
Tambem gostei do tema da temporaria de nulla die sine lina, nem um dia sem uma linha, e do retrato do senhor Camargo e do cristo do senhor Redon e dum que tinha uma estrada dum senhor Lestié. O senhor Camargo tinha lá uma foto dele, mas no retrato (pintado) estava mais atraente, sendo que quero dizer atraente não como bonito ou elegante, mas como alguem que atrai e com quem, dentro de mim, consideraria a hipotese de ter filhos. É um problema que me ocorre muitas vezes, ver um homem que, por fazer bem alguma coisa, se transforma em atraente. Pode ser velho, feio, magro, baixo, e loiro*, mas se souber cantar, pintar, cozinhar ou representar, imediatamente se torna sensual e apelativo. E foi esse o caso com o senhor Camargo: vi a foto dele e era só um senhor magricelas sentado no meio duns quadros. Mas no auto retrato senhores, no auto retrato...
(E às vezes penso que é essa a diferença entre homens e mulheres. Porque vejo raros homens a considerar mulheres velhas e feias e gordas atraentes, por muita arte que tenham em determinada matéria. E vejo muitas mulheres a cair de amores por figuras carismáticas, mas que em termos fisicos...)


*atributos fisicos que, segundo o meu gosto pessoal, colocam os que os possuem no fundo da minha lista de “pessoas com quem eu não me importava de considerar a hipotese de ter filhos”

maanantai, huhtikuu 11, 2005

Na recepção, enquanto tentava ler e perceber as legendas e quadros explicativos à torre vi duas turistas que chegavam e que ao que parece só sabiam dizer “dois bilhetes por favor” em frances. O senhor da recepção disse-lhes que a torre fechava, e que tinham de voltar às duas. Elas repetiram o que sabiam dizer. O senhor tentou fazer-se perceber falando mais alto. Isto continou até ao senhor estar aos gritos de fúria e exasperação. Falar mais alto pode ser util para os duros de ouvido, duvido que funcione para pessoas que não falem a língua.
Enquanto eu me decidia em que lingua lhes poderia ser de auxilio, elas perceberam finalmente a ideia, possivelmente por osmose, talvez por desistência.
Fiquei mal impressionada, mas tenho a noção que para cada um destes, há 10 que apesar de não serem bilingues, estão dispostos a vir à rua apontar para que eu perceba o que é um semáforo, que escrevem sinónimos sucessivos até que eu perceba algum, que me trazem legumes à mesa para eu saber o que vou pedir e que telefonam a colegas que sabem falar outra lingua que eu fale. Estas duas, que num sítio turístico viram isto, que em cada museu onde entrem só vêm dizeres em francês, que só vão cá ficar uns dias, irão por esse mundo fora a espalhar insultos e males dizeres.

Torre

Incomodam-me espaços pequenos e abafados, sinto alguma preocupação se um senhor grande com mau aspecto se dirigir a mim com uma navalha na mão e de vez em quando ocorre-me que era aborrecido se viesse uma garra decepada de algum monstro que me apertasse o pescoço por trás. Mas o que me deixa sem sangue são as alturas. Não sou esquesita, tenho medo de alturas vistas de cima e de alturas vistas de baixo, de alturas de 2 metros e de alturas de 200, de alturas onde eu me meti e de alturas que vejo em filmes. Não foi por isso muito inteligente da minha parte subir 229 degraus em caracol até ao cimo da torre do sino em dia ventoso. A dita torre é feita da pedra do costume (uma pedra porosa, propensa a poluições, quando limpa tem ar de ter sido feita por mãos de padeiro ou pasteleiro, e aqui me ocorre a alegoria do dia, o granito é como uma bola de mel, bem compacta e amassada com uma grande quantidade de materiais diferentes, nunca há duas fornadas iguais, esta pedra que cá mora é um bolinho de arroz, não é mau mas cansa de sempre igual, e esfarela-se.). A torre foi construida quando metade do mundo ainda não tinha sido nossa, tem sinos, um dos quais parece-me que se chama fernando-andre e tem uma nossa senhora doirada em cima de grande utilidade para turistas sem sentido de orientação.
Subir os degraus cansa mas não é terrivel. Terrivel é sair para a “varanda”, ver a cidade lá em baixo, deserta, que aos domingos antes das 14h ainda não é dia e ter apenas uns centimetros de pedra com ar de bolo de arroz com 500 anos a separar-me das intenções do vento de me empurrar para o abismo.
Ainda pensei em descolar-me da parede, largar a gargula e dar à volta, como uma boa turista, mas optei pela solução menos dolorosa e fui-me, de volta às escadas em caracol, onde, por muito mal que caísse, apenas podia partir algumas pernas, sem sentir inércias no estomago, nem ver a morte a aproximar-se, sem dor, mas a prometer muita, ao menos que doia duma vez para ir distraíndo. Abaixo há um outro “terraço” onde cumpri as minhas obrigações de ver as vistas, cidade bonita, bem construida, sem pobrezas de predios a cair, num tom amarelado, dado por telhas e pedras, sem verdes que puxem a vista, uma arvore por outra, a bordar ruelas e avenidas.

torstai, huhtikuu 07, 2005

le moins cher

Aqui os supermercados têm uma coisa engraçada que é o “le moins cher”. Para cada tipo de produto, há um cartaz bem visivel que assinala qual é o “le moins cher”. Se um gajo tem pressa e quer poupar euros, só tem que ir à prateleira, seguir o dedinho indicador que aponta para o menos caro, pegar, pagar e ala que se faz tarde. O que de facto me surpreendeu foi que nos hipermercados “auchan” (os nossos jumbo) tambem havia esta historia do “le moins cher”. E pus-me a pensar, se o fazem aqui, porque não o fazem lá?? Na verdade, os cartazes sinalizadores, já os vi por terras pátrias, mas acho que diziam “promoção” ou “produto de folheto” ou algo do género. E então surgiu-me uma teoria, a que chamarei a “teoria da luta pelos preços”, e que consiste em eu pensar que nós só achamos piada a termos preços baixos se tivermos que lutar por eles.
Reconstituição histórica:
“Os “portugueses das cavernas” em tempos idos, quando iam às compras à caverna-shopping local, tinham que poupar euros, porque os euros nessa altura eram caçados com um cacete e um calhau moderadamente afiado, e não havia bancos nem crédito. Aquilo era uma luta, uma confusão, todos ao monte e esgadunhando-se para tentar encontrar a perna de mamute mais barata. Os mais fortes, conseguiam a perna de mamute mais barata mais depressa que os outros, tornavam-se sexys aos olhos dos portugueses das cavernas do sexo oposto e imediatamente começavam a procriar e a transmitir os genes da “luta pelos preços baixos” a gerações vindouras”

Ou isso, ou como ainda tinham euros, aproveitavam para comprar um pacote de chicletes e tinham melhor hálito, o que é sempre uma ajuda à transmissão de genes...

tiistai, huhtikuu 05, 2005

Patins Museus e Jardins

Fui aprender a andar de patins. A primeira coisa que aprendi foi que, de patins, os braços nunca puxam, empurram sempre (pessoas, semáforos e barreiras). A segunda coisa que aprendi foi que, em caso de pânico, há que cair para a frente, como que a fazer flexões, não há perigo de partir os dentes, porque a terceira coisa que aprendi foi que há que baixar o centro de gravidade, mãos nos joelhos, joelhos à frente dos pés. As colunas e os cérebros das pessoas não estão de acordo com estes princípios e tentam encontrar o equilíbrio para cima e para trás e os patins ressentem-se e vão para a frente e as pessoas caem de rabo. Andar de patins cansa e dói e dá vontade de estudar física para desenhar vectores de forças.
Fui ver um museu para descansar, o museu da aquitania. A historia é parecida só que tem legendas em francês.
Fui procurar comida. Comi uma sandes a ver o rio, li saramago a ouvir francês. Fui procurar um telefone, não encontrei, mas encontrei o jardim publico. Lá havia gente a aprender tiro ao arco, ficam estes vectores para outro domingo, gente sentada, gente a correr, gente a brincar, gente com marionetas e gente com malabares e gente com umas bolas transparentes. Também havia um jardim botânico mas só deitei atenção às couves. Ver jardins botânicos tem piada quando se conhece o nome e não a planta, ou quando se conhece a planta e não o nome. Ver um jardim botânico em francês só tem piada se se quiser saber o que se come.
Dentro do jardim botânico também estava e também vi o museu de historia natural. Lá tinha muitos bichos mortos e empalhados. Diz-se empalhados porque dentro deles só está palha. Na verdade os maiorzitos estão em-metalizados e os grandes-de-todo estão em-madeirados, porque as respectivas peles estão suportadas por andaimes dos respectivos materiais. Os repteis, como têm a pele demasiado fina são na verdade modelos de plástico pintados, pelo que serão em-bonecados. Não acho muita piada a ver bichos mortos e empalhados mas mesmo assim acho melhor que vê-los vivos e enjaulados. Gostei de ver os tamanhos dos leões dos tigres das águias e dos colibris, gostei de saber que griffe é garra. Gostei de saber que os corais têm testículos. Do que mais gostei foi de ver uma estantezinha escondida numa esquina que tinha ovelhas com duas cabeças, gatos com seis patas, lagartos com duas caudas, cães com dois maxilares, galinhas com ossos de gente e patos com número de dedos muito variável.
Algumas ruas têm placas com umas três fases que relatam a historia do nome da rua ou a historia do dono do nome da rua. Estas duas a três frases são traduzidas para inglês em duas ou três palavras. Uma rua com preços de muitos zeros tem uma farmácia com preços de saldo. No jardim da câmara as pessoas sentam-se nos bancos e não na relva. No jardim da camara li mais um bocado, descansei as pernas e fui procurar o jantar.

Tasqueira à Bordalesa

Em Bordeaux fui instalada. O meu quarto fica num prédio velho com vistas novas. Tenho, mais uma vez, um lavatório só para mim, as casas de banho são duas portas á frente e os chuveiros três. Toda a gente diz “bonjour” a toda a gente. Fui apresentada a, ao que me pareceu, toda a gente que passava por mim na rua, e até chamaram ao longe algumas pessoas para me vir conhecer. Agora ando sempre com meio sorriso na rua, não vá dar-se o caso de passar por alguem a quem já tenha sido apresentada e cumprimento todos os carros que apitam.
Fiz uma visita aos fantasmas franceses que morrem com um apelido mas que nascem com um nome. Fui a um coiffure, deixei lá o cabelo e algum couro. Vi uma manifestação, uma catedral e um tribunal, no tribunal há uns ovos de madeira e é lá que as pessoas são julgadas, uma espécie de kinder surpresa criminosos. Há uma rua grande comercial, mas as transversais e as paralelas e as perpendiculares também o são. As coisas são bonitas, os preços têm mais zeros que a minha conta bancaria. Não se vêm muitas referencias a vinho. Ao que parece são tão arrogantes que acham que não precisam.

A arrivada

A França, pelo que me foi dado ver, é um país coberto de nuvens. Por baixo das nuvens havia paris. Paris é bonito para quem voa, para quem tem rodas, o facto de paris ser a cidade luz deve com certeza ter alguma coisa a ver com o facto de ter semáforos a cada 2 metros. Em Paris vi a torre eiffel. É grande e é de ferro. Em paris comi uma quiche e dormi num quarto “com lavatório privativo”. Em paris, falei português e foi como ter visitado alguma parte de portugal onde alguém se tivesse lembrado de pôr uma torre eiffel.
Em paris acordei cedo e apanhei o comboio. O comboio anda depressa e fala francês. Acho que o comboio disse que havia comida na carruagem 14, mas não tenho a certeza porque o comboio falava muito depressa e com muitos grshshshs. No comboio só se podia falar ao telefone fora das carruagens. Ao meu lado estava uma senhora com dois búzios e seis livros e um quadro e um marcador e postais e que conseguiu escrever e ler e ouvir musica em todos estes itens em três horas. Também conseguiu virar a chávena de chá da senhora da frente, que devia ter um Curso de Viagens de Comboio porque tinha almofadas e mantas e pequeno almoço. No resto do comboio havia pessoas a estudar, ler, comer, conversar, preencher o IRS e dormir.

Antes de mais uma carta de saudade

Um gajo acha que é feito de ferro, que o que se quer é passear e viajar e que saudades e tristezas são coisa de rotos, daquelas pessoas que não têm mais nada que fazer aos pensamentos que levá-los para sítios por onde já andaram. E depois vai-se a ver e quando um gajo chega ao estrangeiro o estrangeiro dá vontade de chorar. Vai-se vendo uns monumentos em modo automático, pegando em todos os papeis que pareçam mapas e guias culturais, percorrendo umas ruas, mais pela obrigação de ter alguma coisa que contar do que pela vontade de ver o que há para ver. E à primeira gota de chuva ou cansaço de pés um gajo pensa que o melhor é ir para casa, para onde as coisas ainda são e cheiram e parecem “lá”, e com a desculpa de pôr o desktop mais convidativo para a árdua tarefa que se apresenta, vão-se vendo sorrisos, que abraços não se podem ter.

Posto isto, passemos à Árdua Tarefa que se Apresenta propriamente dita: a redacção do “diário da tasqueira por terras de frança”.