tiistai, maaliskuu 22, 2005

Da Dor

Ouvi no outro dia na televisão (a televisão para mim é um rádio que dá luz), que as mulheres morrem mais de ataques cardiacos porque quando o dito ataque começa, elas continuam a sua vida como se nada fosse, enquanto que os homens vão logo a correr para o hospital. Tambem me chegou aos ouvidos, que em alturas de epidemias de desinteria, as mulheres iam para o campo trabalhar e os homens ficavam em casa que não aguentavam com as dores. As mulheres morriam desidratadas, e os homens recuperavam.
Quanto a estes fenomenos ocorre-se-me tecer algumas considerações:
Pode dar-se o caso de as mulheres terem um nivel de tolerancia à dor mais elevado, pelo que não caem de cama por qualquer ataquezinho cardiaco ou desmanchamento dos intestinos. O que faz sentido em termos evolutivos: que as mulheres a quem doia menos os partos e demais “dores de ter filhos”, os tenham em maior quantidade. O que me faz pensar que a evolução foi filha da puta, em vez de seleccionar alguma característica mais comoda, como ter filhos mais pequenos que saissem pelo umbigo, ou têr um fecho eclair na barriga que se abrisse e fechasse para parir, não! Tinha que seleccionar um método sujo, sangrento e que faz estragos mas que as mulheres conseguem tolerar.
Alternativamente, as mulheres podem não ter de todo mais tolerancia a dor, mas apesar de a sentirem, preferem continuar a trabalhar a arriscar-se a uma visita ao hospital ou a uma estadia na cama, que poderia em ultima analise levar ao acabamento do mundo (mulher tá de cama, marido tenta cozinhar, tenta usar lixivia para fritar batatas, queima a cara, corre desenfreadamente na cozinha tentando descobrir aquela coisa que deita agua, sai acidentalmente pela janela, cai no meio da estrada, carros despistam-se, camião que transporta armamento despista-se, armamento dispara acidentalmente, bush acha que é um ataque terrorista, bush carrega no botão vermelho, mundo acaba, the end)
Eu pessoalmente gosto mais é de me queixar. Se tratasse as minhas doenças com hospital e cama, depois ia-me queixar de quê? Do tempo?

tiistai, maaliskuu 15, 2005

O ódio é uma coisa com muitas patas

O ódio é no geral uma coisa preguiçosa, que gosta de dormir e ficar quietinho no buraco onde mora (ali entre o coração e as costas). Quando há trabalho que fazer, o ódio acorda e estende as patas para os braços, os dentes a coluna e as pernas, preparando o corpo para pontapear, esgadunhar, socar e arrancar bocados de carne à dentada. Há quem pense que há uma pata que se estende para o cérebro e não o deixa pensar, mas eu acho que é mentira, acho que é a desculpa envergonhada de quem tem sangue e bocados de carne nos dentes e quer disfarçar.
O ódio alêm de preguiçoso, é um bocado cego e um bocado surdo. O ódio não consegue acordar e estender as patas por qualquer pessoa imcompetente que se apresente do outro lado dum balcão, esse é um trabalho para a raiva e para a frustação (que moram no mesmo sítio mas que ouvem melhor e só têm uma pata cada uma, uma pata que se estende para a língua e faz gritar impropérios e uma pata que se estende para a coluna e a faz curvar), nem consegue acordar com generalidades, só porque a pessoa onde mora o ódio mora num país que é o primeiro a esquecer-se de pagar as suas dívidas (esse é um serviço para o ressentimento, que mora no cérebro e provoca fugas ao fisco e mentirinhas a segurança social). Não, o ódio só acorda para estender as patas quando alguma coisa barulhenta o incomoda lá no sitio onde mora. Facadas nas costas. E corações a partir.

keskiviikko, maaliskuu 09, 2005

O dia intra-ilhal da arvore

Era uma vez um povo de pessoas pequeninas e morenas que vivia numa ilha que ficava no meio dum mar. Essas pessoas pequeninas e morenas gostavam de comer cenouras e espinafres e gaivotas, de passear à beira da costa da ilha e de fazer festas todas as semanas. Um belo dia, numa das festas semanais, as pessoas pequeninas e morenas repararam que para alêm de cenouras, espinafres e gaivotas tambem podiam começar a comer arvores. E começaram, de facto, a comer arvores: primeiro as folhas, depois os galhinhos mais estreitos, depois os ramos, e por fim os troncos, e repararam que gostavam muito de comer arvores e começaram a comê-las ao pequeno almoço, e ao almoço e ao jantar e ao lanche e a meio da manhã e de vez em quando, se acordavam a meio da noite, trincavam uma raiz, e viviam felizes e despreocupados, comendo as suas arvores. Só que, noutro belo dia, noutra festa semanal, as pessoas pequeninas e morenas repararam que já só havia duas arvores na ilha, uma palmeira e um pinheiro, e ficaram preocupadas e arrependidas. E fizeram da festa assembleia para discutir e tentar resolver o problema. Todos concordavam que a situação era grave, que tinham comido demasiadas arvores e que a ilha estava muito mais feia agora. Todos concordavam tambem que comer arvores era na verdade delicioso e gostavam de continuar a fazê-lo por muitos e longos anos, e gostavam que os filhos dos filhos deles soubessem tambem o bom que era. E pensaram, e pensaram, e pensaram e chegaram à conclusão que o melhor que havia a fazer era criar o “Dia Intra-ilhal da Arvore”, que seria a 9 de março, para que todas as gerações vindouras dessem importância à arvore e soubessem respeita-la e celebrar a sombra e o oxigenio e a beleza e as qualidades nutritivas e o bem que sabia comer uma raiz as 6 da manhã. Contentes com a sua decisão, decidiram terminar a assembleia e festejaram com um grande banquete, em que comeram gaivotas, cenouras e espinafres e um pinheiro e uma palmeira.

perjantai, maaliskuu 04, 2005

Tragédia no mundo da publicidade

Era uma vez um senhora que vivia no mundo da publicidade. Essa senhora estava sempre muito ocupada a lavar roupa, e a lavar o chão e a louça e a cozinha e a varrer e a limpar e a cuidar dos filhos e a cozinhar e a tentar ficar sempre mais nova e mais bonita e mais bem vestida e com o intestino mais bem regulado. Essa senhora tinha um marido, que tambem vivia no mundo da publicidade e que se ocupava de escrever coisas importantes em escritorios importantes, e tambem de ir a bancos e comprar casas e carros e telemoveis e computadores e bebidas alcoolicas e tambem fazia muito a barba.
Um belo dia a senhora baixou-se para apanhar uma bolinha de algodão que estava no chão e deu um jeito às costas. Como lhe doíam muito as costas, deixou de poder cozinhar e lavar e limpar e de fazer todas as coisas que fazia, e pediu ao marido que as fizesse. O marido acedeu, e achou que para uma eficiente ajuda nas tarefas domesticas, tinha que começar por comprar o equipamento necessário, e dirigiu-se ao supermercado mais próximo. Quando chegou lá, em vez de se dirigir a secção das gilettes e do oleo do carro e dos computadores e dos telemoveis como costumava fazer, dirigiu-se à secção dos detergentes e comidas e panelas. Nessa secção havia umas centenas de mulheres e dois homens vestidos de cor de rosa e amarelo, e havia muito barulho porque cada pessoa tinha um produto na mão e estava a dissertar sobre as qualidades do dito, sem que ninguem ouvisse porque todos estavam demasiado ocupados a dissertar para ouvir o que quer que fosse. Acotovelando-se por entre exaltações de durabilidade e enaltecimentos de preços, foi-se esgueirando pela secção de enlatados e massas, tentando alcançar a os congelados, que o que lhe apetecia mesmo era uma pizza. No entanto, foi notando pelo caminho que começava a coxear, e a ficar mais lento. Intrigado, tentou averiguar o que se passaria com as suas pernas, mas reparou que tambem não estava a ver muito bem, tentou apalpar a cara, mas não conseguia mexer os braços. Em panico, tentou rastejar, sem destino, tentando apenas escapar, não se apercebendo que era apenas um olho, aos saltos no meio de pacotes de bolachas.
Moral da historia: no mundo da publicidade domestica os homens não existem.