perjantai, tammikuu 28, 2005
Quando as pessoas são normais, os dentes das pessoas doem, e as pessoas vão ao dentista. Eu não sou normal, por isso os meus dentes não doem, mas eu vou ao dentista, e quando saio os dentes ficam a doer. Podia deixar de ir ao dentista, mas depois as inúmeras cáries que os dentistas dizem que tenho podiam abrir caminho até ao cérebro e fazer buracos por lá. Pode dar-se o caso de eu não ter cárie nenhuma, e a estratégia do dentista ser a de abrir buracos em dentes aleatórios e mutilar um nervo aqui, um nervo ali, improvisando um teatrinho nos meus molares, fingindo que gerações e gerações de bactérias imaginárias dedicaram as suas curtas vidas a derreter o meu esmalte e escavar buraquinhos por anos a fio. Saio do dentista convencida que não passo mais 10 anos na companhia dos meus dentes, a pensar se um resto de vida desprovida de gargalhadas, bifes e codeas de broa será um resto de vida merecedor de ser vivido. No dia seguinte dói-me precisamente (e mui excruciantemente) o dente que o dentista esburacou e as minhas dúvidas anteriores foram respondidas. Um prédio alto... o meu reino por um prédio alto...
sunnuntai, tammikuu 23, 2005
Os meus monstros não moram debaixo da cama.
Os meus monstros moram em sítios escuros, mais precisamente em todos os sítios escuros para onde não estou a olhar. Os meus monstros são espertos: se eu sair do carro de noite, deixar a porta aberta e virar os olhos para outro lado, eles esgueiram-se pela porta dentro, acomodam-se debaixo do assento e esperam por um momento de distracção para me agarrar no pescoço e sufocar. Mas eu não me distraio, porque sei que estão lá e sou mais esperta que eles e acendo a luz. Quando estou em casa eles esperam do lado de fora da janela. Eu sei que eles estão lá, mas não consigo ver porque lá fora é escuro e cá dentro há luz, e faz reflexo no vidro. Se eu apagasse a luz, via-os de certeza, mas eu sei que é isso que eles querem, porque logo que eu apagasse a luz, ficava rodeada de uma grande quantidade de escuro onde todos os monstros do mundo poderiam caber e dedicar-se à minha morte lenta e dolorosa. Os meus monstros não gostam de gente. Quando eu tenho gente à minha beira os meus monstros vão para outro sítio. Os meus monstros não gostam da cidade, só se sentem felizes no campo, lá nem precisam de ter trabalho a fazer barulhos sinistros porque as ervas e as arvores e os bichos fazem os barulhos sinistros por eles.
lauantai, tammikuu 22, 2005
o Cão
O pai do Cão era um desconhecido. Um desses que se passeiam nas ruas e se colam às rodas dos carros. Um dia passou pelo quintal da vizinha duma tia minha e caiu-se de amores pela mãe do Cão. Uivou-lhe amor eterno, latiu as suas boas intenções, saltou-lhe à espinha, ladrou que ia só comprar tabaco e ganiu promessas de retorno breve. Quem pode culpá-la que tivesse deixado partir o Cão sem um ganido, a patas com uma ninhada de pequenos cachorros, sem ninguém que a ajudasse na difícil tarefa de educá-los e inculcar-lhes os antigos valores de seus pais. E foi assim que o Cão veio cá para casa. Cá em casa, é o guarda fiel que não deixa ninguém entrar, excepto eu, o meu irmão, os meus pais, dois tios e um vizinho. E qualquer pessoa que faça um ar confiante e não lhe mostre medo. A todas as restantes pessoas, ele arranca rapidamente a cabeça com uma dentada e arrasta o corpo para a cozinha. Esta é uma inovação recente, já que antes ele costumava escavar buracos no chão e esconder ali os cadáveres, mas quando nos apercebíamos da terra revolvida e tentávamos desenterrar o que invariavelmente revelava ser apêndices dos mais variados vendedores e de alguns membros da vizinhança, víamo-nos obrigados a dirigir-lhe palavras severas... Um dia deve-se ter apercebido que a comida devia ser guardada no sítio da comida, e começou a trazê-los para a cozinha.
Nós gostamos dele, mas as outras pessoas por alguma razão acham que ele é um monstro… devem ser preconceitos por ele ter sido abandonado na infância.
Nós gostamos dele, mas as outras pessoas por alguma razão acham que ele é um monstro… devem ser preconceitos por ele ter sido abandonado na infância.
perjantai, tammikuu 21, 2005
Como induzir uma pulga a atentar sobre a própria vida
Pulga, pulga, pulga... Que raio julgas tu que andas a fazer com a tua vida? Passas o dia a sugar sangue, tens 27 filhos, vais dormir, acordas, sugas sangue, tens mais 27 filhos, vais dormir, todos os dias a mesma coisa, sempre igual, um dia igual ao outro, igual ao outro, igual ao outro... tu pretendes realmente desperdiçar os teus 100 dias de vida (supondo que tens comida e bebida, que não és esmagada por uma unha e que não cais da orelha dum cão de 2 metros de altura), tu pretendes desperdiçar a tua curta vida a gerar prole ingrata que não se interessa por ti e que, podendo, até as tuas fezes comia? Pulga, pulga, pulga... Porque não fazes algo de útil e tentas sugar o sangue todo do bush aos bocadinhos? Sugas 0.000014 litros, cospes, sugas 0.000014 litros, cospes, sugas 0.000014 litros, cospes, sugas 0.000014 litros, cospes, contínua e incansavelmente, até nada mais restar que um monte de ossos e roupa e pele e pelo e alimentos semidigeridos no chão e uma pulga afogada numa poça de 5 litros de sangue. Morta, mas feliz por ter cumprido um dever maior e dado um sentido à sua de outro modo inutil vida.
torstai, tammikuu 20, 2005
Dúvida Existencial do Dia: as almas podem re-encarnar em seres desprovidos de carne?
Vamos supor que um gajo morre e que , vai-se a ver, a teoria correcta é a da re-encarnação. A sua pobre alma vê-se obrigada a buscar um corpo, mais vivo, onde habitar.
Por onde começar a escolher? Só pode re-encarnar em humanos, ou pode re-encarnar em qualquer ser vivo? Se puder ser em qualquer ser vivo, será que bactérias e vírus tambem vale? E será que se continua a chamar re-encarnação, ou haverá nomenclatura mais adequada:
Em mamiferos: re-encarnação
Em peixes: re-enpeixação
Em anorecticas: re-enpeleeosso-ação
Em vegetais: re-plantação (ou coma?)
Em virus: re-proteinação
E será que uma alma cabe nesses seres mais pequeninos? E se as almas cabem assim em sítios pequenos, será que cabe mais do que uma alma numa pessoa? Será que é por isso que há pessoas esquizofrénicas, quando uma alma chega a um gajo e vê que já está ocupado, mas por birra decide ficar? Ou será que é normal, e toda a gente tem um ror de almas dentro de si, cada uma a mandar o seu bitaite e daí ser por vezes tão díficil tomar decisões, porque cada alma tem uma opinião diferente?
Por onde começar a escolher? Só pode re-encarnar em humanos, ou pode re-encarnar em qualquer ser vivo? Se puder ser em qualquer ser vivo, será que bactérias e vírus tambem vale? E será que se continua a chamar re-encarnação, ou haverá nomenclatura mais adequada:
Em mamiferos: re-encarnação
Em peixes: re-enpeixação
Em anorecticas: re-enpeleeosso-ação
Em vegetais: re-plantação (ou coma?)
Em virus: re-proteinação
E será que uma alma cabe nesses seres mais pequeninos? E se as almas cabem assim em sítios pequenos, será que cabe mais do que uma alma numa pessoa? Será que é por isso que há pessoas esquizofrénicas, quando uma alma chega a um gajo e vê que já está ocupado, mas por birra decide ficar? Ou será que é normal, e toda a gente tem um ror de almas dentro de si, cada uma a mandar o seu bitaite e daí ser por vezes tão díficil tomar decisões, porque cada alma tem uma opinião diferente?
resusscita, thomp thomp thomp
Pois então acontece que eu morri, não por a minha alma ter ido à descoberta de outras paragens, mas porque gerir le tasque estava a dar mais trabalho que prazer. E, como gaja que gosta pouco de se ver metida em alhadas, em casa de dúvida, há que cometer suicídio. Só que entretanto, e como gaja que acredita pouco em fidelidades eternas a opiniões, amores ou deuses, mudei de ideias, e decidi ressuscitar-me. Sorte a minha que o suicídio foi literário, e para ressuscitar um morto literário basta dizer “ressuscita” enquanto se bate 3 vezes com o pé direito num chão de tijoleira vermelha. Já se me tivesse dado para cometer um suicidio fisico e o meu corpo estivesse a decompor-se na terra e a minha alma se tivesse entretanto re-encarnado numa qualquer pulga* e eu tivesse mudado de ideias e quisesse voltar à vida, ia-me ver obrigada a pescar todos os meus bocadinhos digeridos que se andassem a passear nos estomagos dos mais variados insectos e vermes e bactérias, a juntar esses bocadinhos digeridos à referida pulga, tentar induzir a pulga a cometer suicídio**, e tentar convencer a minha alma sem-abrigo a morar no monte disforme de bocadinhos digeridos e semidigeridos, mais os ossos e as pedras nos rins que já teria sido eu.
Posto isto, dado que me apetece, e como não custa nada: ressuscitei, aleluia!
* duvida existencial do dia: as almas podem encarnar em seres desprovidos de carne?
**nota mental: pensar em modos de induzir pulgas a cometer suícidio
Posto isto, dado que me apetece, e como não custa nada: ressuscitei, aleluia!
* duvida existencial do dia: as almas podem encarnar em seres desprovidos de carne?
**nota mental: pensar em modos de induzir pulgas a cometer suícidio
