torstai, kesäkuu 23, 2005

o tempo

O Tempo, na altura em que o conheci, era um moço novo, ainda sem barba, a viver em casa dos pais, o Sr Luz e a senhora História. A mãe do Tempo nao se cansava de olhar para ele e de ir escrevendo o que ele fazia. o pai do Tempo preocupava-se mais com o presente e com a beleza da vida e ia gozando cada momento, sem se preocupar com posteridades. Apesar de novo e de ainda viver em casa dos pais, o Tempo tinha um trabalho, que ele não escolheu mas que tinha que fazer (um pouco como o trabalho dos humanos ser viver). O trabalho do Tempo era fazer cruzinhas na testa dos humanos. Todos os dias, o Tempo saía de casa e ia fazendo uma cruzinha na testa de todos os humanos, por ordem alfabética dos nomes das almas (as almas tinham um nome composto por letras e numeros, desde o dia em que o Fabricante se aborreceu de inventar nomes bonitos e com algum tipo de sentido como estrela e quénia e saudade e comecou a chamá-las de AVGFGFHH89023). Não era o trabalho do Tempo contar as cruzinhas, esse era o trabalho da Morte, o Tempo limitava-se a fazer cruzinhas em todas as pessoas que estivessem vivas à hora que ele passasse por elas, com um marcador invisível a olhos humanos mas visível a olhos alegóricos.
O Tempo, sendo um moço novo, achava piada a fazer umas brincadeirinhas. Às vezes gostava de passar de mansinho pelas pessoas, fazendo com que elas não se apercebessem da sua passagem, e rindo a bom rir com a cara que elas faziam quando a morte as apanhava desprevenidas. Outras vezes gostava de fazer um grande estardalhaço ao passar pelas pessoas com um ar mais stressado e preocupado, e de vê-las a bufar e a resmungar que tinham tantas coisas a fazer e que ainda ontem era ontem, e hoje já é outro dia...
Um belo dia uns amigos decidiram pregar uma partida ao Tempo e convidaram-no para jantar e fizeram-lhe uma daquelas gelatinas de vodka. O Tempo não era moço abstémio, mas não gostava de beber antes de trabalhar porque gostava de fazer o seu trabalho bem feito. Ficou por isso surpreendido e atribuiu a uma qualquer quebra de tensão quando no fim de jantar, preparado para mais umas horas de trabalho, se viu a andar em Ss e com o peito molhado depois de ter dito “poijentaomuitoobrigadinhopeloxantar,amigojjjjjjj”. Com ou sem quebra de tensão ele nao tinha hipóteses de faltar ao trabalho (as unicas alturas em que tinha umas folgas era quando o pai se dedicava a dar umas corridas a grande velocidade, mas o pai nessa noite tinha ido fazer uns biscates para uma empresa de lâmpadas), e teve mesmo que ir pôr todas as cruzinhas em todos os humanos vivos da ronda da noite.
No entanto, como estava um bocado tocado, começou a ficar um tanto ou quanto criativo e opinioso e comecou a distribuir as cruzinhas, não por ordem alfabética, mas conforme lhe parecia justo: Viu humanos da classe dos chefes, dos que gostavam de abusar das cruzinhas dos outros, sempre a pedir para formatar computadores e instalar programas para não se darem ao trabalho de chamar os srs informáticos, e a pedir para fazer coisas à mão porque comprar fica caro, e pimba, espetou-lhes nas testas todas as cruzinhas das quais as pessoas não puderam usufruir enquanto se afadigavam com as suas tarefas “faça lá isso que não custa nada e poupamos um euro e a chatice de enviar um mail”, viu outros humanos daqueles que achavam que pedir a amigos para gastar cruzinhas com eles nem contava como favor (porque não envolvia gasto directo de euros), e pimba, espetou-lhes nas testas todas as cruzinhas referentes a horas no trânsito para dar boleias, a tardes perdidas a levantar roupa na lavandaria, a dias inteiros a ir só ali a espanha levantar umas amostras que eu não posso que estou de férias. Ora isto desorganizou o horário da Morte, que ja tinha programado tudo para aquela noite (levantar as almas BSFHFIE3754 a 94985, aparecer subitamente às almas WFHFQEJDJDSIHD983654 a 54654456546540, partir os travões do carro da LKJFSHRFH97854 e dar um empurrãozinho à penumonia da SDIHFEKJD94859, depois tinha um jantar de negócios com os gerentes do MacDonalds para acertar os preços do colesterol, e ainda ia ver se conseguia dormir duas horinhas enquanto o Tempo descansava), e que se viu de repente a braços com vários humanos com um número de cruzinhas que ultrapassavam o seu valor limite de cruzinhas predestinadas e que ela ia ter por isso que levantar. Enquanto procurava na agenda o número dalgum serial killer que lhe pudesse dar o jeito ia-se indagando como poderia ter-se descuidado tanto com tantos humanos ao mesmo tempo, valha-me o Fabricante, como pude eu desleixar-me tanto e ter deixado tantas almas excederem o número de cruzinhas, será da minha vista, se calhar já não vejo bem as cruzinhas, se calhar vou chegar a amanhã e vou-me aperceber que me desleixei em mais alguns milhares, ou pior ainda o Fabricante vai querer ver as almas mais recentes e vai-se aperceber que montes delas ainda andam aí a usar cuzinhas e vou ser despedida e vou ter que arranjar outro emprego na minha idade não é nada fácil sabe o Fabricante como foi dificil arranjar este, tive que puxar dalguns cordelinhos e convencer o fabricante que era mais divertido se eu estivesse por cá, porque podia usar as almas para diversas coisas, e ia criar empregos, e agora isto, valha-me o Fabricante... E, preocupada com todas estas coisas, a Morte achou que o melhor mesmo era encontrar não um serial killer mas um humano terrorista e um humano presidente e convencê-los a entrarem em guerra, de modo a despachar logo alguns milhares de almas.

6 Comments:

Blogger Luz said...

Genial. :)

5:05 ap.  
Anonymous Sarip said...

Hás-de experimentar escrever p DN Jovem...

8:18 ap.  
Anonymous JC Duarte said...

Tenho estado ausente (mea culpa, mea máxima culpa!).
E o que eu tenho perdido!

Talvez por falta de tempo...

4:06 ap.  
Anonymous perplexo said...

Thank You!

9:52 ip.  
Blogger Maria Cachucha said...

lady tasqs, que é feito de si? já há algum tempo que não me dá o prazer do seu patuá. começo a ficar preocupada. haveis-vos quedado por terras de franças e esquecido as areias de portugal?

7:57 ap.  
Anonymous Karla said...

Muito bom... mesmo muito bom...

10:16 ap.  

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